‘Não posso imaginar a vida sem Franca’, diz Mansur Jorge Said

Franca Entrevista de Domingo A- A+ 20/02/2011 Autor(a): Marcos Vilela Foto(s): Marcos Limonti/Comércio da Franca
‘Não posso imaginar a vida sem Franca’, diz Mansur Jorge Said

RECONHECIMenTO - Ex-diretor da Ciretran, Mansur Jorge Said, ainda é parado nas ruas de Franca pela população para discutir problemas do trânsito. “Isso mostra a ligação que criei com o órgão”

Natural de Pedregulho, casado, pai de quatro filhos e aos 77 anos de idade, Mansur Jorge Said é referência francana quando o assunto é trânsito. Ele mudou da cidade vizinha em 1969 para assumir o cargo de primeiro diretor da Ciretran (Circunscrição Regional de Trânsito) de Franca, que recebe o seu nome até hoje. Além do cargo, que ocupou por 34 anos, o delegado aposentado também foi colaborador na diretoria do Departamento de Trânsito da Prefeitura até 1994.

Ex-vereador (1997 a 2001) e considerado cidadão francano desde o ano de 1977, quando recebeu o título, Mansur conversou na sala de sua casa com a reportagem do Comércio da Franca. Falou sobre como foi o período em que esteve à frente da Ciretran e sobre as diferenças que percebe na política e no trânsito francanos atualmente. “Assumi a Ciretran no dia 29 de setembro de 1969 e me aposentei em 26 de novembro de 2003. Todos estes dias foram vividos da forma mais intensa possível”, disse.

Com orgulho, o ex-diretor da Ciretran lembrou da implantação de um novo sistema viário em Franca em 1973 - quando existia apenas um semáforo em toda a cidade - e também da criação da Transilândia na própria Ciretran, primeira cidade em miniatura a céu aberto no Estado de São Paulo, utilizada como instrumento de educação para crianças de seis a doze anos de idade.

Longe do cargo de chefia do trânsito e da política, Mansur acompanha pela imprensa e nas ruas as mudanças na cidade de Franca. Se declara espantado com o tamanho da frota atual de aproximadamente 200 mil veículos, além da crescente demanda em postos de saúde. “Quando me mudei para Franca, eram cerca de 150 mil habitantes. Hoje temos quase 350 mil e este número não para de crescer. Fica difícil acompanhar a transformação”.

O ex-advogado também comentou sobre o rumo que deu à sua vida desde que se aposentou em 2003. E destaca a atenção que agora consegue destinar à família. “Hoje digo que sou um administrador. Cuido da minha esposa, dos filhos, dos netos, da fazenda. Até meus horários consigo organizar”, brincou.

Dedicado à produção de húmus da fazenda da família e aos netos, Mansur se diz quase mineiro. Com a fala calma e tranquila, relembra com saudade o acolhimento dos francanos. Ele fala com emoção das pessoas que o param na rua ainda hoje para pedir ajuda ou informações sobre o trânsito na cidade. “É uma ligação muito forte. Franca faz parte do que sou. Devo muito a este povo”.

Comércio da Franca - O senhor assumiu a Ciretran de Franca em 1969 e se aposentou em 2003. Como foi passar 34 anos na diretoria do órgão?
Mansur Jorge Said -
Toda a minha vida foi dedicada a este trabalho. Fui o delegado que passou mais tempo no comando de uma Ciretran em todo o Estado de São Paulo. Eu vim de Pedregulho para Franca no final da década de 60 para assumir o cargo. A Ciretran ainda não havia sido instalada na cidade e fui o primeiro diretor. Desde então fiquei à frente do trânsito de Franca e também fui colaborador na diretoria do Departamento de Trânsito da Prefeitura. Acumulei os dois cargos até o ano de 1994. De 1994 a 2003 me dediquei apenas à Ciretran. Quando assumi a diretoria da circunscrição, Franca não tinha o trânsito intenso como o de hoje. A população era de aproximadamente 150 mil pessoas. No decorrer da minha administração, a população cresceu consideravelmente, assim como o número de veículos do município. Foi um desafio adaptar o trânsito da cidade ao seu crescimento.

Comércio - Quais foram as principais contribuições do senhor para o trânsito de Franca?
Mansur -
A implantação do novo sistema viário municipal em 1973 foi o grande marco da minha administração. Até aquela data, Franca possuía apenas um semáforo em toda a cidade. Ele ficava em frente à Praça Barão. Instalamos diversos em todo o município e isso ajudou a organizar o trânsito. Franca foi uma das primeiras cidades do Estado a organizar o sistema viário a partir do estabelecimento de semáforos. Além disso, a criação da Transilândia, dentro da Ciretran, também foi muito importante. Desde o seu surgimento em 1976, ela é um ótimo instrumento de educação para crianças de 6 a 12 anos de idade. É uma Franca em miniatura que possui todos os elementos encontrados no trânsito da cidade. As crianças aprendem exatamente como funciona a sinalização e os cuidados que devem ter.

Comércio - A Ciretran de Franca possui o seu nome. Como foi o processo para que ela recebesse esta denominação?
Mansur -
A proposta foi do deputado estadual Gilson de Souza (DEM). Ele quis me homenagear por todos os anos de serviços prestados na diretoria da Ciretran e, em 2004, ela passou a ter o meu nome. Ter o trabalho reconhecido é algo maravilhoso, ainda mais quando o nosso nome fica registrado em um órgão de tamanha importância. É o reconhecimento por 34 anos à frente da circunscrição sem nenhum problema ou deslize de qualquer espécie.

Comércio - O trânsito de Franca tem registrado um crescente número de acidentes e mortes nos últimos meses. Na sua opinião, o que pode ser feito para frear este aumento?
Mansur -
Bem, muita coisa mudou desde a época em que assumi o Departamento de Trânsito da Prefeitura. A cidade cresceu e a frota também. A maioria das ruas, especialmente no Centro, continua com a mesma largura e o estreitamento é prejudicial. É difícil imaginar que alguma grande obra possa ser realizada, já que a cidade tem sua estrutura bem delimitada e muitas casas precisariam ser demolidas. Penso que pontos específicos podem ser modificados, como a inserção de semáforos nas proximidades do fórum e na rotatória da Avenida Champagnat próximo ao posto Mário Roberto. Mas acho que o fundamental é a realização de campanhas de conscientização, principalmente para motociclistas. Há muitos registros de acidentes com estes condutores, sendo seguidos de mortes. A base do trânsito é a educação.

Comércio - O senhor tem acompanhado os recentes problemas envolvendo mototaxistas na cidade? O que pode ter gerado tamanho conflito entre estes profissionais e a Prefeitura?
Mansur -
O Contran (Conselho Nacional de Trânsito) baixa uma resolução exigindo o curso para eles se regularizarem, mas não orienta ninguém sobre como irá funcionar. Os mototaxistas querem trabalhar e ganhar o dinheiro para sustentar a família, mas são impedidos. Cria-se toda esta confusão que estamos vendo nas ruas de Franca. A cidade fica um caos. Faltou orientação e acomodação para o credenciamento destes profissionais.

Comércio - Outra fonte de reclamações tem sido o novo sistema utilizado para a retirada e renovação da carteira de habilitação através da internet e pré agendamento na Ciretran. O senhor acredita que este seja o melhor método?
Mansur -
Claro que não. A burocracia só atrapalha. No meu tempo, tirar carteira de motorista não levava mais que um mês. Hoje a pessoa precisa agendar exame, atualizar dados cadastrais e o tempo perdido é enorme. A prevenção contra fraudes pode até ser maior, mas em pouco tempo os bandidos já se adaptam. É sempre assim.

Comércio - O senhor já participou da vida pública como vereador nos anos de 1997 a 2001. Como foi a sua experiência na política?
Mansur -
Fui o 2º vereador mais votado nas eleições daquele ano e assumi o cargo pelo Partido Liberal. Atualmente não sou ligado a nenhum partido. Confesso que não tinha nenhuma experiência legislativa, mas a pressão de amigos e parentes me estimulou a seguir com o meu trabalho e concorrer no processo eleitoral. Procurei me informar sobre os principais problemas da cidade na época e aprovar projetos interessantes como, por exemplo, a diminuição da poluição visual na cidade, mas não obtive sucesso.

Comércio - Qual a sua opinião sobre o resultado das eleições 2010 em Franca e região? Os candidatos da cidade poderiam ter obtido melhores resultados?
Mansur -
Difícil afirmar. Torci muito pelo Ubiali e pela Graciela, mas ele teve maior sorte. Política é assim mesmo. Às vezes, esperamos que um resultado se confirme, mas ele não ocorre. Tenho certeza de que ambos vão voltar mais fortes nas próximas eleições. Já com relação ao Roberto Engler e ao Gilson de Souza, suas vitórias foram merecidas. Eles trabalham pela região há muito tempo e espero que façam um bom trabalho nestes quatro anos. O Gilson de Souza é um amigo pessoal e sua conquista me deixou muito feliz.

Comércio - Franca tem hoje um grande político?
Mansur -
O grande político de nossa cidade, hoje, chama-se Sidnei Franco da Rocha. O prefeito é um grande administrador e sabe lidar com as pessoas. Alguns costumam questionar seus posicionamentos diante de situações polêmicas, mas ninguém pode discutir a sua capacidade administrativa. Ele tem feito um ótimo trabalho na Prefeitura de Franca. Todos percebem que a cidade cresceu na sua administração. Outro nome que se destaca, na minha opinião, é o de Joaquim Ribeiro. Ele teve grande participação na construção da nova Câmara Municipal, que é motivo de orgulho para os francanos.

Comércio - Qual a principal diferença da política atual em Franca para o período em que foi vereador?
Mansur -
Acredito que as reivindicações mudaram completamente. Franca tem crescido muito nos últimos anos. O Pronto-Socorro “Doutor Janjão”, por exemplo, foi inaugurado no início da década de 1990 e atendia perfeitamente às necessidades da população francana. Hoje, ele já não comporta o número de atendimentos requisitados e, por isso, um novo pronto-socorro já está em fase de construção. A Prefeitura tem uma demanda muito maior em todos os setores, desde a saúde, passando pela segurança até o trânsito. O trabalho aumenta a cada ano que passa. Acredito que a equipe de secretários tem realizado um bom trabalho.

Comércio - Como foi se afastar da vida pública e se aposentar?
Mansur -
Não foi simples. Eu não queria me retirar, mas já era hora de parar. Ainda me considero um funcionário público. Meus hábitos foram mantidos e sigo a minha vida de forma bastante regrada. Durmo e acordo sempre no mesmo horário e procuro ocupar o meu dia trabalhando. Vou diariamente à fazenda, em Pedregulho, e trabalho com meu filho na produção e venda de húmus. Hoje, consigo curtir mais a minha família. Mas, mesmo aposentado, ainda sou vinculado ao trânsito. As pessoas me param nas ruas para questionar problemas do trânsito na cidade, além de inúmeros pedidos que recebo para a realização de obras estruturais. As pessoas se esquecem que não sou mais o diretor da Ciretran (risos). Isso mostra a ligação que criei com o órgão.

Comércio - E como tem sido essa nova vida?
Mansur -
Muito diferente. Meu filho é agrônomo e me ajuda muito. Esta fazenda foi uma herança recebida pela minha mulher Edna Penna Said. Já vivi em uma fazenda com meus pais por cerca de 20 anos quando era jovem e gostei muito. Sempre fui próximo deste tipo de vida. Nossa fazenda possui aproximadamente 85 alqueires ou, em outra medida, 200 hectares. Digo que hoje sou um administrador. Administro a fazenda, os filhos, os netos e a esposa (risos).

Comércio - Vocês plantam ou cultivam algo em especial?
Mansur -
Plantamos eucaliptos e temos pastagens. Mas o nosso ponto forte é a produção de húmus. Há 15 anos trabalhamos com a venda de adubo orgânico, mas a atividade começou a crescer realmente nos últimos dez anos. Utilizamos esterco bovino e restos de milho como matéria-prima da produção. As minhocas se alimentam desta mistura e em 35 dias todo o material já se transformou em húmus pronto para ser vendido como adubo natural. Chegamos a produzir 40 toneladas por mês. O mercado de Franca atende bem à nossa necessidade. As nossas vendas se destinam basicamente a casas de jardinagem, hortas particulares e pessoas que desejam adubar suas próprias plantas.

Comércio - O senhor já recebeu o título de Cidadão Francano. Como foi a homenagem?
Mansur -
O título foi ideia do vereador José Mercuri, no ano de 1977. Fiquei muito feliz, assim como toda minha família. É tão difícil ter o trabalho reconhecido, ainda mais em vida. Receber este título me aproximou ainda mais da cidade. Não sou natural daqui, mas sinto como se fosse.

Comércio - Qual foi a maior conquista de sua vida?
Mansur -
Sem dúvida, o reconhecimento de toda a população francana. Eu sempre procurei atender a todas as pessoas da mesma maneira em todos os cargos que ocupei. Por onde passo, recebo abraços e parabenizações pelo trabalho que realizei na cidade. Tenho 77 anos de idade e posso dizer que atingi todos os meus objetivos. Trabalhar e ser reconhecido é o que a maioria das pessoas busca e, felizmente, posso dizer que cheguei lá. Esta cidade me acolheu na década de 60 e aqui construí tudo o que tenho. Não posso imaginar a minha vida sem Franca. 

5 Comentários

  1. 7 pessoas gostaram Gostei

    Sem dúvida nenhuma uma das maiores personalidades vivas da nossa Franca, com um pensamento revolucionário e moderno para seu tempo. Me lembro muito bem da mini-Franca construída no Ciretran, local a onde eu aprendi a olhar os dois lados antes de atravessar a rua...rsss! Bons tempos!!!

  2. 7 pessoas gostaram Gostei

    O Dr. Mansur serve de exemplo para todos que acompanha a vida de Franca e região. Tudo que exerceu para o bem da comunidade utilizou se de sua humildade, simplicidade e carinho. Seus atos durante a sua vida transmite a todos uma grande confiança, seguida por toda sua família. Um abraço do amigo Zezinho e família.

  3. 7 pessoas gostaram Gostei

    Tio Mansur, fiquei orgulhoso ao ler essa reportagem. Fico triste de não poder compartilhar com meu pai, seu irmão, esse momento, que com certeza o faria muito feliz. Eduardo Saadi

  4. 7 pessoas gostaram Gostei

    Dr.Mansur É muito gratificante conhecer uma pessoa como o senhor..Pessoas que saiu de Pedregulho,fez história aí fora,e mesmo assim continua uma pessoa simples.São de pessoas assim que o mundo precisa e tambem soube passar aos filhos essa virtude que faz falta em muita gente :a humildade!Hoje fazes parte da história de Franca e esse reconhecimento não é à toa.Continue sendo sempre essa pessoa fantástica.

  5. 7 pessoas gostaram Gostei

    Querido Dr. Mansur Jorge Said - com absoluta certeza - uma pessoa que faz parte da história da minha Franca e Região, e que se encaixa perfeitamente nas palavras de Fernando Pessoa, o valor das coisas não está no tempo que elas duram mas na intensidade com que acontecem, por esta razão é que existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparávels.

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